“Anauê!”, Plínio Salgado e Sigma: Algo sobre o integralismo

(Ricardo Hedler)

Em meados da década de 1920 com o término da primeira grande guerra, onde países como a Itália e a Alemanha ficaram destruídos e suas economias reduzidas à miséria, com o socialismo ascendendo na União Soviética e o capitalismo entrando em olapso no mundo inteiro em 1929, viu-se a necessidade de criar doutrinas que estimulassem o sentimento nacional nos seus cidadãos. Credos que reerguessem a Itália ao ápice do império romano e a Alemanha à grandeza dos povos germânicos de outrora.

No Brasil, com a economia quebrada após a crise de 1929, a dominância das oligarquias cafeeiras de São Paulo no poder, as desigualdades sociais, a falta de identidade nacional e a perigosa expansão do socialismo pelo mundo, viu-se também a necessidade de uma doutrina totalmente nova que atendesse as necessidades do Brasil. Foi pensando em tudo isso que, em 7 de outubro de 1932, Plínio Salgado fundava a Ação Integralista Brasileira (AIB).

Auge e exílio

Plínio Salgado,o fundador da Ação Integralista Brasileira (AIB): Do auge próximo do poder ao exílio em Portugal (Reprodução)

O integralismo, ou movimento integralista como ficou conhecido, teve início nos anos 1930. Foi inspirado no integralismo lusitano português e nos movimentos nacionalistas europeus como o fascismo italiano e o nazismo alemão. Seus principais idealizadores foram Gustavo Barroso, Miguel Reale e o próprio Plínio Salgado, tendo esse último fundado oficialmente a AIB em 1932 após uma série de estudos a respeito dos problemas gerais da nação realizado pela Sociedade de Estudos de São Paulo (SEP).

Por um período, os integralistas tiveram o apoio do até então ditador Getulio Vargas e atuaram contra a intentona comunista de Luís Carlos Prestes, em novembro de 1935. Após esta rebelião, o membro integralista e militar Olímpio Mourão Filho forjou uma documento comunista denominado Plano Cohen, basicamente uma série de ações terroristas que deveriam ser organizados pelos comunistas em solo Brasileiro.

Esse sentimento de medo acabou sendo usado por Vargas para declarar estado de guerra e posteriormente fechar o congresso, com o apoio militar e dos integralistas, que almejavam um lugar ao lado do ditador. Vargas acabou por instituir a ditadura do Estado Novo. Plínio Salgado seria candidato à presidência para as eleições de 1938, porém, com a proclamação de Vargas, o pleito foi suspenso e os partidos políticos fechados, inclusive a AIB, causando revolta entre seus membros.

Na noite de 10 de maio de 1938, oitenta membros da AIB invadiram o Palácio Guanabara e atiraram com uma metralhadora em direção as janelas da residência presidencial, obrigando Vargas a pedir socorro ao exército que chegou após cinco horas e conseguiu render os atacantes. Após essa tentativa fracassada, os integralistas foram caçados, presos, torturados e deportados, como o próprio Plínio Salgado, que partiu para o exílio em Portugal. Ele voltaria ao país apenas em 1945, com a anistia após a queda de Vargas.

A AIB tornou-se, então, uma legenda partidária: o Partido de Representação Popular (PRP), que participou de todas as eleições de 1945 até 1966. Com o fim do PRP, onde grande parte do movimento estava concentrado depois do fim do auge do movimento, a maioria dos membros da AIB nucleou-se na ARENA, inclusive Plínio que foi parlamentar no estado de São Paulo por essa legenda.

Mas, afinal, o que vem a ser o integralismo?

Gustavo Barroso, um dos principais teóricos do integralismo, também conhecido como um dos pensadores mais antissemitas do país por alguns estudiosos e críticos (Reprodução)

A ideologia integralista visa a integração total da população com o estado. Tem como símbolo o sigma, que representa a soma de todos os valores. Os indivíduos e suas famílias seriam a base que refletiriam no estado a vontade divina de igualdade e progresso conjunto. Acreditavam que o partidarismo político não era eficaz, pois cada partido apenas buscava os seus próprios interesses, não importando-se com o bem geral da nação.

Seus princípios ainda pregavam contra a busca desvairada materialista e o individualismo social, não intervindo, entretanto, no caráter social de cada cidadão e na educação dos jovens, como faziam os fascistas. Ao contrário do fascismo e do nazismo que enxergavam o indivíduo transitório num estado perpétuo, acreditam que cada indivíduo seria uma célula num organismo corporativo que forma a nação, e não o inverso.

Os membros do integralismo defendiam os direitos iguais de mulheres e negros na sociedade. Seus membros tornaram-se milhares, chegando a mais de um milhão em 1937 e conquistaram seguidores em vários estados no Brasil, inclusive Santa Catarina, um dos estados que mais possuíam afiliados, atrás apenas de São Paulo e Bahia.

Apesar das características herdadas das ideias fascistas, os integralistas não tinham em suas práticas ideias de cunho racista. Pelo contrário, eram antirracistas, sendo a misoginia uma característica naturalmente brasileira, onde a mistura de raças contribuiria para a formação da sociedade conjunta e a imigração enriquecendo a cultura da nação.

Anauê! O cumprimento dos integralistas era um grito indígena (Reprodução)

No entanto, até hoje existem controvérsias a respeito da ideologia integralista, sendo que esta se baseia em algumas características do fascismo e do nazismo como o ultranacionalismo. Os membros da AIB usavam uniformes verdes, com o seu símbolo, a sigma, no braço esquerdo (igual a suástica nas fardas nazistas) e faziam uma saudação com o braço direito esticado (igual a saudação nazista) e seu brado, em vez de exaltar um lídera, era uma palavra de origem tupi-guarani: Anauê!, que significa tu és meu irmão!

Outro ponto polêmico são os livros de Gustavo Barroso, um dos maiores pensadores integralistas do começo do século passado. Em algumas publicações, Barroso citava que o que traz o mundo nos sobressaltos contínuos atuais, minado pelo revolucionarismo e pelo terrorismo, é justamente o racismo judaico. O judeu não se mistura com outros povos, mantem através dos séculos a pureza de sua raça, e, dentro das outras nações, alicerçado nesse racismo, conserva a sua nacionalidade, feito um Estado dentro do Estado.

Esse sentimento antissemita trata, entretanto, sobre o conceito sionista judeu, que defende o direito à autodeterminação de seu povo. Ou seja, Barroso repudiava a visão judaica de um estado dentro do estado, porque não haveria lugar para indivíduos que não integrassem o próprio estado brasileiro. Não indicando em ponto algum, dentre sua vasta obra literária, o repudio étnico aos judeus.

Uma reunião atual da hoje Frente Integralista Brasileira: Ao centro da mesa, o atual presidente da organização, Victor Emanuel Vilela Barbuy (Reprodução)

Apesar de serem taxados de fascistas enrustidos por diversos historiados, os integralistas, que nunca chegaram ao poder, não foram mais fascistas que o próprio Getúlio Vargas, que após decretar o dito Estado Novo, fechou todos os partidos, decretou lei de segurança nacional, caçou e torturou seus opositores e instalou o departamento de imprensa e propaganda para controlar a imprensa e divulgar maciçamente as ações do governo. Uma espécie de culto ao chefe semelhante ao Duce italiano Benito Mussolini.

Atualmente existe a Frente Integralista Brasileira (FIB), que foi criada em 2005, mas não se identifica como partido político. Seus membros difundem os ideais integralista na internet e na TV. Muitos deles sofrem ataques, principalmente de partidos de esquerda, por serem comparados com nazistas. Como foi o caso da expulsão do presidente da FIB, Victor Emanuel Vilela Barbuy, da Universidade de São Paulo em 2017 onde daria uma palestra sobre o municipalismo. Barbuy, ao chegar na universidade teria sido expulso por 200 alunos aos brados de recua fascista!

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