Rui, o outro cara de boina

Eu uso boina há algum tempo. As vezes, fico algum período sem usa-la pra preservar meu cabelo e não perde-lo por bobagem. Não tenho vergonha de usa-la, nunca me deixei levar por esse papinho de “coisa de velho” ou “você não vai conseguir garota” quando ela estava na minha cabeça e logo ela volta. Só o tempo esfriar um pouco e pronto.

Alias, foi numa destas reflexões nas redes sociais – sobre a boina e esta cisma social – que, de repente, o gigante baiano da sinuca mundial resolveu me seguir. Sem nenhuma “motivação”. Nem mesmo eu, por mim mesmo, recorri a ele. Não sei também se foi coisa dele ou dos que editam a página dele no Instagram, mas me senti tocado de alguma forma: por conta de uma boina, Rui Chapéu era meu seguidor no Insta.

E se for falar de boina pra boina, Rui é lenda. Aquela boina branca já viu de tudo na vida, especialmente o subir, o ascender de sua estrela que saiu da distante Itabuna (BA) para conquistar o mundo das bolas pesadas e das mesas verdes. Foi dono de mercearia e caminhoneiro até que a sinuca (ou bilhar, como queiram), seu hobby de muito tempo, virou seu esporte, um novo esporte para o brasileiro ver.

Sinuca, antes, era jogo de “gente de bar”, coisa de desocupado e sem glamour nenhum. Mas sinuca é usar a cabeça para dar o nó no adversário usando-se da tacada certa, aquela desconsertante que fica na memória de quem está ao redor da mesa. Foi com jogadas fantásticas e uma técnica única que José Rui de Mattos Amorim tornou-se Rui Chapéu, um dos sucessos da Bandeirantes nos anos 1980, na redescoberta da sinuca como esporte, e esporte fino.

Uma das raras fotos onde estão Rui e o “Pelé da sinuca” Steve Davis (de borboleta). Foram duas vitórias contra o campeão mundial (Reprodução / Terceiro Tempo)

Nas partidas dentro do Hotel Transamérica, em São Paulo, Rui exibiu sua classe e expertise na mesa verde encarando na Band desde outros nomes da sinuca esportiva brasileira, como Roberto Carlos (sim, o nome é esse mesmo) e campeões mundiais, como o britânico Steve Davis, o maior de todos os tempos e que fazia dos seus encontros com Rui verdadeiros espetáculos de técnica. E acredite, Rui foi atrevido, Rui e bateu duas vezes o “Pelé da sinuca”, pra todo Brasil ver.

Passado o hype da sinuca, Rui saiu das câmeras e virou figura cult sem perder a classe como professor de bilhar, impressionando os adversários com suas jogadas impressionantes e técnicas incríveis para tirar caçapas da cartola como poucos. Ensinou muita gente as manhas da sinuca e inspirou sinuqueiros de plantão no seu esporte. Tornou o jogo um passatempo que misturou sofisticação e simplicidade. E mesmo longe dos holofotes, ainda tinha a mesma técnica de outros tempos, e ostentava a mesma boina branca de outras aventuras.

Simples, tranquilo e sorridente, com sua história escrita no esporte com um taco nas mãos e com bolas pesadas sob seu domínio, Rui Chapéu é figura de outros tempos que merece sempre a minha e a geral reverencia de todos. Sua partida aos 79 anos me pegou de surpresa na manhã de sábado (28/02). Foi fulminante, rápida demais para quem tinha muita vida pra viver e caçapas pra fazer.

De onde estiver, Rui, como filho de ex-sinuqueiro, fiquei devendo de te conhecer. Mas, daqui da mesa de bilhar, deixo uma simples reverencia. Tão simples quanto seus trejeitos abaixo da boina que ostentava. A boina mais famosa de um país inteiro.

De boina pra boina, valeu, Rui!

(Abaixo, uma das últimas aparições de Rui Chapéu na TV: no The Noite, com o bem humorado Danilo Gentili)

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