Brasilia, tiros e audácia

“Audácia, audácia, sempre audácia” era o credo francês durante a Primeira Guerra Mundial e uma pitada dela sempre faz diferença em qualquer momento da vida, especialmente o jornalismo, que exige um jogo de cintura ainda mais ousado quando o assunto é uma história inédita e exclusiva. E esta passagem mostrou que audácia faz parte do ferramental da profissão desde os tempos antigos.

Os personagens de hoje: Da esquerda para a direita, o lendário fotógrafo Claudio Larangeira (com G mesmo) e o caça-segredos de Quatro Rodas, o saudoso Nehemias Vassão (Reprodução / QR)

Foi audácia, simplesmente, o que usaram numa tarde de abril de 1973 a dupla caça-segredos mais famosa da revista Quatro Rodas: o saudoso repórter Nehemias Vassão e o fotógrafo Claudio Larangeira. Os dois foram responsáveis por algumas das maiores peripécias registradas na publicação em matéria de descobrir o que as montadoras escondiam em matéria de futuros lançamentos. O faro jornalistico da dupla era incrível e a rapidez de raciocínio, malícia e, claro, audácia, eram ainda maiores.

E foi numa destas andanças a cata de segredos que Vassão e Laranjeira tiveram de mostrar que tinham culhões. À época, Claudio ainda era um freela a serviço da Quatro Rodas e acompanhava Nehemias seguindo a informação de que a Volkswagen estava fazendo os últimos testes do Brasília, novidade da marca para aquele ano preparada para a briga contra o Chevette, lançamento da Chevrolet também para 1973.

O local dos testes eram as curvas da Estrada Velha de Santos, feita em canção por Roberto Carlos e ponto preferido das montadoras para avaliar o desempenho de seus protótipos durante a fase de desenvolvimento ou pré-série. Não era raro quando turistas, em visita aos mirantes da estrada, dessem de cara com carros diferentes ostentando placas azuis ou verdes cruzando as curvas e pequenas retas da via. E a Brasília seria mais uma destas a passar por lá, e de uma forma que a imprensa jamais esqueceria.

Um “Fusca quadrado”

Primeira menção a “mini-Variant”, março de 1972 Reprodução / QR)

O Brasília (com artigo masculino mesmo, já que deriva do substantivo masculino “automóvel” ou “veículo”) nasceu da explosão de ideias do então presidente Rudolf Leiding, que num surto criativo entrou na sala dos projetistas Marco Piancastelli e José Vicente Martins e rabiscou por sobre as linhas inconfundíveis do Fusca uma forma quadrada de um novo carro. O pedido era simples: um carro pequeno por fora e grande por dentro com grande área envidraçada e que pudesse usar o mesmo chassi do besouro.

Os protótipos começaram a ser produzidos, tomando como base as linhas da Variant. No entanto, o desenho evoluiu, saindo dos traços já antigos da perua para um mini hatch semelhante a um furgão, de linhas retas, vidros grandes, grande espaço interno e, surpreendentemente, mais curta que o Fusca. Em meados de junho de 1972, a Volks já tinha praticamente definidas as linhas do Brasilia e os testes entraram na reta final para o lançamento do carro no ano seguinte.

Neste meio-tempo, a Quatro Rodas já acompanhava a evolução dos estudos do que viria a ser o Brasília. A primeira menção foi em março de 1972, ainda com as linhas da Variant. Na edição foram dois protótipos encontrados, um bordô e um branco. No primeiro, o motorista do protótipo saiu em marcha a ré tresloucada tentando evitar as fotos, no segundo, a sorte foi o motor fundido e a discrição para conseguir mais detalhes do protótipo.

Outra menção a mini-Variant, como era comumente chamada pela revista, foi em maio de 1972, numa revisão dos futuros lançamentos da Volks para o ano seguinte que incluía na lista o SP2. As linhas finais do carro já estavam definidas e faltava muito pouco para o lançamento. Estamos em 1973, o Chevette estava entrando na reta final para o lançamento, os alemães precisavam correr… e a Quatro Rodas seguia de olho.

 


O encontro em Santos

Foi assim que, num belo dia em abril de 1973, dois protótipos da Brasília, um azul e outro amarelo, rumaram para a estrada velha de Santos para os últimos testes de estrada. Com a informação de coxia, correram para lá também Vassão e Larangeira em busca de fotos exclusivas. À época, Claudio ainda era freelancer a serviço da revista e, vez em quando, embarcava com Nehemias nas aventuras a caça de segredos.

No entanto, os tempos eram bem outros em matéria de caça as novidades em teste. Hoje, em muitos casos, as empresas chegam a literalmente entregar locais de testes e facilitar fotos para instigar as concorrentes na guerra do mercado. Mas nos anos 70, um segredo de fábrica era, literalmente, um segredo de fábrica. Fotos eram verdadeiras violações de privacidade e tudo era feito para evitar flashes inconvenientes.

No comboio na estrada velha de Santos: as duas Brasília praticamente prontas, juntamente com o pessoal da Volks. O trabalho de Vassão e Larangeira vai começar (Reprodução/QR)
No detalhe, a marca do tiro na placa do Fusca da dupla (Reprodução / QR)

Vassão e Larangeira sabiam bem do buraco onde se enfiariam, das montadoras brasileiras, a Volkswagen era uma das que mais endurecia a vigilância em torno dos seus protótipos. Com o Brasília a marcação era mais cerrada, seria o adversário maior do Chevette e seu projeto teria, mais a frente, outra função dentro da própria empresa. Mas a notícia fervia, o tempo urgia, e a Quatro Rodas de maio aguardava o grande furo do mês para ir para a gráfica.

 

Com o ultimato vindo da chefia da redação, a dupla partiu em um Fuscão laranja rumo a estrada velha em busca de pistas da equipe de testes até que, voltando de Cubatão, aparecia o comboio que contava com duas Variant com o pessoal da engenharia e com os seguranças da montadora. A frente, os dois protótipos, um azul e outro amarelo, já nominados como Brasília.

A dupla passou os dois carros e começou a fazer fotos, mas a calma no trabalho não ia demorar muito. Atrás deles, as Variant com os seguranças tentavam ultrapassa-los e fecha-los. Foram algumas tentativas até que, sete quilômetros depois, as Variant onde estavam os seguranças cercou o carro de Vassão e Larangeira, sob gritos ameaçadores.

Os seguranças estavam enfurecidos, um deles – José Roberto Massei – apontava a arma para a cabeça de Vassão aos gritos de “eu queimo” alucinantemente. Em um momento, Massei atirou pra baixo, atingindo a placa do Fusca. Massei e outro segurança, Edson de Andrade, então começaram a tirar os dois do carro. Andrade puxava Larangeira enquanto Massei dava pontapés na porta do carro exigindo que Vassão saísse. Andrade também arrancou das mãos de Claudio sua câmera, um modelo Pentax, e a danificou. Tentou até destruir o filme, mas se feriu na tentativa.

O que a dupla de seguranças não contava é que, quem passava na estrada indignava-se com a cena. Um deles era o casal José Geraldo Nogueira Brito e Denilza Oliveira, que parou o carro e foi em defesa dos repórteres. Neste momento, sorrateiramente, Massei dispensou o revolver e o coldre para a dupla da outra Variant e descartou as balas no mato próximo. Logo, a Polícia Rodoviária chegou para por ordem na situação, que estava longe de terminar.

Desencontros na delegacia e o tiro pela culatra

A edição de maio de 1973: as “grandes” exceções do primeiro teste do Chevette e do primeiro teste de longa duração da revista – os 30 mil Km da Variant – o segredo da Brasilia desnudo no dia do almoço de paz com a Volks (Reprodução / QR)

Mesmo com as orientações sobre o caso, a recepção na delegacia foi algo espantoso. Durante os depoimentos, questões como o tiro e a agressão física foram ignoradas no boletim de ocorrência, num ambiente que parecia totalmente favorável aos seguranças da Volks. No embalo, Vassão ainda foi advertido por “imprudência na estrada”.

No entanto, foi encaminhada à Polícia Técnica uma ordem de perícia no Fusca dos repórteres e os tiros e marcas de pés na porta mostraram que o fato era ainda pior. Segundo o delegado responsável pela perícia, em São Bernardo de Campo, o fato poderia dar “até três anos de cadeia” por configurar-se como uma espécie de “tentativa de homicídio”. O caso já estava na mão dos principais órgãos de proteção a liberdade de imprensa do Brasil, era um escândalo.

Tentando abafar o caso, a Volkswagen convidou a executiva da Editora Abril e repórteres para um amistoso almoço de desculpas na sede da empresa, em São Bernardo do Campo. Mas entre uma garfada e outra, o segredo do Brasília era desmantelado entre matérias jornalísticas que abordavam o incidente. E a maior: no mesmo dia do almoço, ia as bancas a histórica edição de maio de 1973, com o Chevette na capa e, em destaque, a Brasilia em todas as fotos e detalhes do ocorrido.

Seria apenas mais uma entre tantas histórias envolvendo as descobertas de Nehemias Vassão e Claudio Larangeira, além de outros fotógrafos que acompanharam Vassão em outras aventuras nos idos glamourosos da busca dos segredos das fábricas. No entanto, o rei das artimanhas, que abusava dos disfarces e da esperteza atrás dos furos, nos deixaria em junho de 2010, vitima de uma parada cardíaca, aos 70 anos.  Já Claudio, com passagem em vários veículos segue atuando com fotografia e tem no seu portfólio verdadeiras preciosidades, como os primeiros registros dos trabalhos da Copersucar-Fittipaldi entre 1973 e 1975, nos anos pré-estreia da equipe, entre outros.

Quanto o Brasilia, o carro seria lançado um mês depois naquele mesmo 1973, sendo depois o case de sucesso que inspiraria o projeto do Golf na Alemanha, responsável por suceder o Fusca anos depois. Seu chassi era menor que o do Fusca mas seu espaço para passageiros era maior que o da Variant e, em 1978, chegaria a superar o besouro em vendas no Brasil. Sairia do mercado em 1982, preterido pelo recém-chegado Gol.

 

 

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