A sereia e o poeta

Eu vejo sepulcros caiados…

Ossos limpos, desintegrados.

Papeis boiando, salgados pelo mar.

Entre pedras negras, marcadas do sangue de outras empreitadas.

Me chamam de louco: “Poeta, volte para casa!” E fui remando na névoa de aroma floratta, ouvindo o cantar da sereia negra, sorridente, machucada.

Entre vales, ela foi encontrada confinada em grade dourada. E quando foge, vaga arrematando corações cristais.

E quando um aventureiro cai nas pedras, não sobrevive ele a distância. A sobrevivência por ela dita, versada, gritada em ecos desesperados antes do pôr-do-sol quase definitivo.

Sabem, eu amei a sereia e, por ela, fui chamado com a mesma voz grave, suave, sedutora na raiz das algas que cercam-na nas pedras pontudas.

Ora, que otário! outro sepulcro caiado! Vai ser morto, largado como qualquer aventureiro ali preso, decomposto, desalmado“.

A gente escuta coisas, mas estranhamente parece armado de coragem quando a sua espada é uma flor que carrega, consigo, a única luz de sol que encontro aqui.

Vou recordar: Ela apareceu por acaso, numa noite, parecia enrolada em trapos depois de outra noite fugindo das capturas que infligiram contra ela. Corpo marcado, pulsos cortados, cansada, ofegante, desamparada.

Entreguei-lhe algo para comer e alguns versos do meu bojo. Vi brotar um sorriso naquele ser visto como assustador nas lendas e nas aparências desenhadas. Até que o inevitável, o insustentável desejo apareceu.

Arranquei-lhe um beijo à boca, ela me segurou compulsivamente, como dizia ela nunca ter sido segura por um homem. Entre o baile dos lábios, o dançar de palavras de alento e carinho que aquele corpo frágil nunca tinha visto.

E foi-se o feitiço. Desvendei as curvas cobertas pelo longo vestido negro. Era como uma sensualidade poética, perfeita no fim de cada estrofe, do descer do pescoço a delicadeza das linhas que levavam a intimidade dela.

Cada movimento era excitante. Riamos como adolescentes, e nunca tinha mais me sentido tão abrigado como naqueles dias. Misto de prazer, amor, verso e vida.

Tanto como o corpo, carreguei na mente no primeiro plano sua memória e história. As palavras suspiradas em noites frias soavam como pedido de socorro, mas ela sabia e advertia: “se eu sumir, é por amar demais”.

Me atrevi a chamar ela de amor. E a loucura me fez desejar colocar nela uma aliança, chama-la de esposa e dar a ela a família que sempre escreveu em seus versos mais íntimos diante da gaiola que a colocaram.

Mas os mares revoltaram, a desilusão baixou como névoa e ela, imersa no seu rito de sobrevivência, começou a pedir distância, esfriar o próprio fogo que continha em si e que, de alguma forma, a mantinha sonhando.

Comecei a vagar, mergulhei nas músicas que me mantinham vivo tal como o alcoólatra e seu lenitivo a alma ferida. Aos poucos, a distância se apresentou e, sim, ela estava exercendo da distância para salvar-se, sobreviver-se.

Nessa hora, chuto uma das madeiras de meu pequeno barco e a flor quase cai dentro do diminuto convés. Raiva!

Droga! Perdi novamente! Será que ela não entende que só se arrebenta a garagem e rasga a veste de sereia lutando?

Ao que parece, posso me transformar em mais um destes que boiam ao redor da pedra onde ela, graciosa e sedutoramente, encontra-se sentada com o mesmo vestido negro, as mesmas pernas a leve mostra e o mesmo sorriso convidativo a perder-se.

Estou a vendo, e engraçado se não for impressão minha de um tonto acostumado a se enganar: quando ela mira-me ao longe, aquele sorriso de espantar aventureiros muda, quase um desabrochar no meio do matagal escuro.

Acho que ela me esperava, me chama com um cálido “oi, amor!”.

Remo com calma, e não respondo nada, assim que encosto meu pequeno barco nas pedras que a cercam.

Conheço o caminho. Ela dá leves risos, até parece uma repelência ao meu sentimento, para evitar que me machuque mais ainda.

E chego diante dela. Aquele lugar que os tantos ali sepultados ao mar nunca chegaram.

Me vanglorio? Não… baixo a face, percebo sua aproximação junto a mim.

Acaricia minha barba, mas não pede mais o beijo como antes. Está sobrevivendo.

E quando levanto o olhar, simplesmente apoio minha bolsa ao chão, retiro o vaso brilhante dela e estendo a suas mãos.

Seguramos o mesmo vaso ao mesmo tempo, como se as mãos dela fossem o último pedaço de sua carne que terei contato profundo.

Dedos entrelaçados, olhos nos olhos, parece que escorre uma lágrima dela ou deve ser água da chuva, nem sei eu mais.

“Fique com ele, e lembre de quem você amou”.

Viro-me de costas, e pareço escutar algum soluço perdido enquanto arrumo a boina na minha cabeça.

No vaso, ela se vê refletida: um girassol olhando a outro.

E enrolado nele, meu coração, trincado, apagado, como um cristal escurecido pelo tempo e intempéries, clássicos de minhas aventuras no amor que terminaram no mesmo céu escuro daquela tarde.

“Você ainda me ama?”

Esperado, ela não responde, desvia, receia… está sobrevivendo.

“Eu estarei por ai”.

Entro no barco e vou. Evito de olhar para trás e cair na bobagem de cair naquele corpo outra vez.

E lá ela, em pé, observando como quem vê um marido indo a luta ao mar.

Mas não, ela não será minha, tenho que remar mantendo meu barco próximo, mas não mergulhado.

E se hoje existe perigo nela, talvez seja realmente o reflexo de alguém que sofreu demais para continuar permitindo que qualquer pescador a atravesse novamente.

Eu atravessei, sobrevivi e ela também sobrevive.

E as noites nunca mais brilharam como antes.

Já quem atravessa o mar, ainda vê a sereia, no entanto é como se um vagalume pousasse no mar.

Naquela pedra, no colo dela, um pedaço meu luminoso resiste.

Um girassol.

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